Entrevista com Renato Torres, músico e poeta, vocalista e guitarrista da banda Clepsidra

Foto de Rafael Samora
Foto de Rafael Samora
  • Blog do Argonauta: - Olá! Renato, tudo bem? 
  • Renato Torres: - Tudo certo. 
  • Blog do Argonauta: - Meu irmão, eu já ouvia falar da banda Clepsidra há um bom tempo, mas só recentemente tive o prazer de conhecer melhor as músicas, e são belíssimas, na minha opinião, conta um pouco de como surgiu essa parceria e como está sendo essa jornada musical. 
  • Renato torres: - A banda começou em 2001, quando eu e Maurício Panzera (baixo) resolvemos criar um projeto musical de pesquisa e experimentação. Estávamos atrás de uma linguagem que correspondesse às nossas visões pessoais como músicos, instrumentistas, compositores, arranjadores. 
  • Resolvemos não partir imediatamente para um formato tradicional de banda, o que demandaria a inclusão de um baterista, já que ele toca baixo, e eu guitarra e voz. Nessa época eu comecei a investigar música feita em computador com sequenciadores, usando loops e samples. Passamos então algum tempo experimentando arranjos e timbres, até chegar ao formato que gerou nosso primeiro disco, o Bem Musical, de 2004. 
  • Blog do Argonauta: - Entendi, é realmente um som de muitas faces e de uma vibração poética, e musicalmente muito agradável. 
  • Renato Torres: - Mas, apesar de estarmos às voltas com instrumentos sintetizados, e bases eletrônicas, queríamos somar a isso a camada orgânica de outros músicos. Chamamos então um baterista, um percussionista, sax, cello, etc., que nos ajudaram a criar essa textura. 
  • E sim, a poesia sempre esteve dentro de nossos interesses, especialmente porque em minha trajetória de compositor, as letras sempre tiveram um papel preponderante. Escrevo desde os 13 anos, e comecei a tocar violão e compor com 17, a poesia tem mais tempo. Tenho mesmo o costume de escrever primeiro as letras pra depois musicá-las, de investigar a musicalidade que emana da palavra escrita/falada. 
  • Blog do Argonauta: - Sim, é verdade, as sonoridades dos outros instrumentos somam de uma maneira a reforçar a personalidade das canções, ficou muito bom. 
  • Renato Torres: - Depois de Bem Musical, passamos à ideia de fazer um disco conceitual, em torno da ideia expressa pelo nome da banda (Clepsidra significa relógio de água). 
  • Daí nasceu o projeto Tempo Líquido, disco que lançamos em 2006. Reunimos canções que falam desse lugar híbrido que ocupamos sendo amazônidas urbanos, vivendo em Belém, uma metrópole com todas as tensões de qualquer cidade grande, mas onde também se concentra uma temperatura afetiva cabocla, entre o provinciano e o interiorano, que nos destaca como pessoas hospitaleiras, calorosas, amorosas. 
  • Essa contração paradoxal, nós condensamos na epígrafe "tempo grande, água pequena", verso da canção-título, uma parceria minha com Daiane Gasparetto, que é bastante simbólica para este tempo de alargamentos e possibilidades em que vivemos, e onde se deterioram e fragilizam os afetos, as relações humanas. 
  • Blog do Argonauta: - Sim, a água tem uma gama de pontos de interpretação e expressão infinitas, as suas músicas onde a água se contextualiza conseguem muito bem expressar isso. É bem verdade que Belém é poeticamente retratada em algumas das suas canções e ritmos, isso é muito bacana. A música “Interno” é muito cativante e me lembra isso que você falou. 
  • Renato torres: - "Interno", que você mencionou, uma canção que fiz em parceria com Panzera e Márcio Moreira, é uma canção sobre um dos ícones máximos de Belém, a chuva, mas, mesmo falando da chuva poeticamente, ela remete a uma afetividade, uma substância de delicadeza e inteireza que nos caracteriza (ou pelo menos ainda ao caboclo do interior). A palavra "interno" nesse contexto é uma aliteração, que guarda o sentido de "inverno íntimo", dessa umidade emocional que nós aqui temos. 
  • Blog do Argonauta: - Outra que achei muito interessante, claro que todas são, mas “A máquina do tempo”, tem uma concepção muito madura e muito simples também da noção do tempo "a máquina do tempo é o pensamento" isso é simples e verdadeiro. 
  • Renato torres: - "A Máquina do Tempo" é uma canção do Panzera, que de longe, é nosso maior hit, a música da banda que mais tocou no rádio, e que os fãs da banda sempre recordam e pedem. Claro, há uma relação íntima dela com o conceito fluídico do tempo que esse disco carrega, mas além disso, ela traz uma letra propositiva, que apresenta um mosaico de hipóteses em forma de pergunta, de questionamento, mas sem o peso existencial, sem o ranço de uma reflexão filosófica pesarosa, como quem revê o passado e se arrepende de coisas. Ela simplesmente te propõe relaxar em torno da ideia de que o tempo é, de fato, uma invenção do pensamento humano. 
  • Blog do Argonauta: - Entendi, bem legal. Conta pra gente quais foram inicialmente as maiores influências e o que mudou de lá pra cá. 
  • Renato Torres: - Temos muitas referências musicais, que passam por toda a tradição da MPB - em especial o Clube da Esquina e a Tropicália - além do rock, do jazz (e as muitas vertentes da música instrumental brasileira e mundial), do blues. Somos apaixonados por música, e respiramos essa linguagem o tempo todo. Em nosso disco mais recente, que acabamos de lançar pela Na Music, Independente, trazemos um tratado sucinto, uma súmula acurada do que somos musicalmente, aliados à musicalidade de nosso último baterista e parceiro, Arthur Kunz (Strobo). Independente é um disco enxuto, claro e direto, onde apenas nós três tocamos. 
  • Blog do Argonauta: - É verdade. Pode-se perceber um pouco de tudo isso ao ouvir as canções. 
  • Renato torres: - Do nosso primeiro trabalho pra esse último as mudanças se deram de maneira gradual. Avançamos bastante em termos técnicos e de produção, passando de um estágio mais frouxo e experimental para um processo apurado, musicalmente mais técnico e polido. Esse último disco atesta o que estou dizendo. Os elementos que fazem o som do Clepsidra continuam lá: a poesia, os arranjos, a delicadeza de certos detalhes, mas tudo dito com muito mais clareza e direção. Creio ser este o caminho natural para qualquer artista que preza uma trajetória de busca e evolução de sua linguagem; procurar dizer da melhor e mais convincente forma o que está se procurando dizer. 
  • Blog do Argonauta: - Renato, eu fico muito feliz de poder entrevistá-lo e divulgar um pouco mais essa música maravilhosa que a Clepsidra consegue desenvolver, conseguindo juntar poesia, sentimento, raiz e sonoridade com uma harmonia fascinante. 
  • Eu fico muito honrado por ter conversado contigo. Desejo sucesso continuado, paz e muita música e poesia pra tornar mais bonita a vida. Muito obrigado mesmo pelo seu tempo. 
  • Renato torres: - Edinei, agradeço pela entrevista também. 
  • Essa foi a entrevista com Renato Torres, músico e poeta, vocalista e guitarrista da banda Clepsidra. 
  • Para conhecer mais, sobre a banda, as músicas, onde comprar o CD, onde ouvir, notícias e tudo mais, é só acessar os links abaixo: 




Imagens cedidas por Renato Torres.